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Criar é confiar no movimento

Arte por Duy Huynh.

Recentemente fui convidado a submeter um conto para participar de uma antologia e, apesar de já ter se passado algumas semanas que o escrevi, sigo com os personagens e aquele universo na minha cabeça, se mexendo, se expandindo, me exigindo respostas.

A sensação de criação artística, seja por quais meios forem, é muito difícil de descrever até mesmo para outras pessoas que experienciam isso. O que mais se ouve é que é um “processo doloroso”. Não sei se é a melhor definição para o que costumo sentir. Talvez seja um esforço, o fato de enquanto se está criando entra-se em contato com alguns lugares internos nem sempre tão bem frequentados possa causar algum desconforto, mas não sei se se trata de dor. Talvez porque não goste da ideia de atrelar sofrimento ao fazer artístico, e sim ao não-fazer artístico.

O quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli disse certa vez numa entrevista que, no seu caso, era como se entrasse em transe. Que atingia um nível de fluxo de consciência durante a criação artística, em particular a escrita, e as ideias saíam em jorros, imparáveis. Essa imagem é mais próxima do que sinto, um tipo de atividade mental em que os pensamentos vão se concatenando e se associando, dando corpo a algo coerente com a sensação criativa, aquela ideia intangível e difícil de ser traduzida.

Quando estou desenhando ou escrevendo, quando cedo espaço para a criatividade fluir com mais intensidade que a preocupação técnica, consigo sentir esse Fio de Ariadne roçar meus dedos na escuridão. Se me permito acreditar no meu trabalho, posso agarrá-lo e vou me orientando melhor, entendendo o que quero expressar, encontrando as melhores referências e ferramentas na técnica para me ajudar a me aproximar ao máximo do que foi idealizado. Se trata, portanto, de confiança. Confiança em si próprio, no seu trabalho, no que se pratica, no que se imagina conseguir traduzir daquela sensação criativa.

Essa confiança ajuda a vencer o medo de criar, a vencer a procrastinação, o adiamento do fazer, e se colocar em movimento. A gente vai lavar várias louças, varrer a casa três vezes, levar o cachorro para passear, arrumar o armário, assistir só a mais um episódio, fazer mil outras coisas que até então adiávamos só para postergar o momento do fazer artístico. Porque aquele medo da tela em branco, da folha em branco, da partitura em branco, da tecla imóvel, do palco vazio, enfim, de começar o processo, é esvaziado tão logo aceitamos e confiamos no impulso do fazer. É uma aceitação. Se não nos permitimos levar por esse impulso, e de alguma forma fazer disso um hábito, vai se tornando cada vez mais difícil dar este passo em direção ao movimento do fazer criativo.

A mim nunca faltaram ideias, sempre me faltou ímpeto. Não sei se por ter sido punido várias vezes durante a infância por estar desenhando em vez de estar estudando, ajudando nas tarefas domésticas, trabalhando, ou qualquer outra coisa mecânica que as pessoas normatizaram, ou se por medo de me perder nesse processo e ser julgado por isso. A tal Síndrome do Impostor. De qualquer forma, ao entrar nesse fluxo, aceitar e confiar no movimento do fazer criativo, me vejo num lugar muito particular dentro de mim, e a sensação provocada por esse processo não pode ser suplantada por nenhuma outra. Uma sensação que me acompanha por muitos dias depois, um tipo de embriaguez ou gozo.

Ainda estou orgulhoso de ter conseguido encontrar a ponta do Fio de Ariadne na escuridão desse labirinto, de ter imaginado e concluído uma ideia, que poderei desdobrá-la em outros projetos artísticos e continuar em marcha. Por algum tempo andei me sentindo árido, desestimulado a produzir qualquer coisa por conta de experiências negativas, e ao produzir e constatar que o que produzi foi feito com criatividade e inteligência, me deixou extasiado. O processo de criação artística me causa isso, essa sensação de confiança em mim e de que estou em movimento.

E isso é lindo de sentir.

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