O mapa da saudade

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Nov 19, 2011

Algumas sensações devem ser exprimidas com urgência antes que se desvaneçam. Ou ainda, antes que se tornem outra coisa, outro sentimento. Não obstante, na maioria das vezes, não sabemos interpretá-las e já brotam tortas, assemelhadas a outras variações emocionais e daí não há mais volta. Por isso quis expressar o quanto antes o que senti em minha experiência recente de ter assistido, e de certa forma participado, da peça Todo Este Mato Que Cresceu Ao Meu Redor, criação coletiva de Caio Riscado, Luar Maria, Lucas Canavarro e Pedro Capello. Todos também atuando no palco.

Entretanto, antes de começar, repito o gesto que antecede à entrada da audiência no ambiente e retiro aqui mesmo meus sapatos. Deixo do lado de fora deste texto qualquer pretensão a criticar a obra por conta da minha total falta de familiaridade com o universo teatral e com as suas produções, sejam recentes ou clássicas. Não tenho qualquer intimidade com o Teatro, e confesso que tampouco sei o que fazer diante de uma possível interatividade (que de fato ocorreu) com qualquer manifestação artística que envolva improviso e participação imediata: quedo estancado quando em performances, danças ou peças teatrais que me convidam a contribuir com qualquer coisa, seja física ou falada. Dito isto, prossigo.

Nas minhas poucas idas ao teatro pude ver histórias sendo contadas num fluxo regular e tradicional, de início, meio e fim, em geral adaptadas de textos conhecidos, nada muito experimental, e já sabendo que Todo Esse Mato… não seria assim, procurei tirar da mochila o preconceito e abrir espaço para sensações novas. O que curiosamente é contrário ao tema da peça que é a saudade, por essência um sentimento de familiaridade e ausência, mesmo daquilo que você não teve. Foi isso o que senti. A pergunta que no programa da peça eles fazem e que se estende por todo o trajeto encenado pelos quatro é: Como se mata uma saudade? E então faço uma pergunta por cima desta: Como se mapeia uma saudade?

Caio Riscado

Onde ir buscar dentro do outro o sentimento puro de saudade necessário para se trabalhar este texto? Melhor dizendo, como despertar isso? Do alto de uma janela Caio vê passando alguém e de lá pensa no vazio que isso lhe causa. Lucas faz uma lista de todos os possíveis itinerários pelos quais poderíamos haver passado, ou que um dia viremos a passar. Luar nos encara nos olhos e busca uma faísca diferente que se agite, que seja a ignição da profusão de movimentos que a nossa mente produz quando relembra um momento. Pedro canta uma canção de amor que é o retrato da saudade, do pedido que se faz para ficar a alguém que vai embora.

O que o quarteto executa é o evocar não de um objeto específico, mas diversos; não um lugar, mas todos os lugares, de todas as partes do mundo, de diversas capitais, praças, ruas, lojas e esquinas, de dentro da gente.

Luar Maria

Em dado momento, Luar retira do fundo de uma gaveta uma sucessão de pertences que não serviram de nada a ninguém, completamente vazios de significado para ela, e um a um apresenta-os como de alguma forma importantes. Quase que como presentes. Pensei: Quais seriam entre as nossas memórias as que menos representação emocional possuem para nós? Elas estariam relacionadas a outras pessoas? Qual a importância delas para o outro? E neste jogo de significados interpessoais, o conteúdo desta mesma gaveta ganha datas, funções, recordações e histórias nas mãos de Caio, mas, diferentemente do primeiro momento, agora são enumerados com uma certa displicência. Não há uma unidade de medida segura para o que o outro sente.

E todos procuram por Marlene, que poderia ser qualquer mulher ou todas as mulheres, qualquer homem, ou todos os homens. Marlene poderia ser um outro nome para… saudade. Em frente a um restaurante de comida barata em Berlim, ou na fila de espera do Outback de Botafogo, Marlene poderia estar transitando incólume pelas ruas do Largo do Machado ou de Beirut, sempre um passo à frente dos nossos personagens, gerando cada vez mais saudade, mais ausência. A falta que ela faz é sentida nos olhos dos atores, na coreografia ansiosa de Caio e Luar(a troca de pernas, o tamborilar dos dedos, o pé que balança de um lado ao outro), na troca de assentos e visível desconforto de Pedro, e também na caligrafia nervosa de Lucas.

Lucas Canavarro

Dos momentos mais fortes da peça foi o encontro fortuito de um casal, depois de longo tempo separados, o que mais me marcou. O visível desequilíbrio da bagagem emocional dos dois, do que cada um levou para si da experiência de estarem juntos no passado. Ela, madura e dona de um arrependimento que só quem amou demais sabe, ele, leve da vida, como o balão que traz nas mãos, não entende o que se passou. O tempo então tem velocidades diferentes para cada um. Ela o encara, desconsolada nos olhos, contente no sorriso, e por dentro encharcada de lágrimas. Afinal, como diria o escritor português Gonçalo M. Tavares (que tinha acabado de ler no metrô a caminho da peça), em O senhor Swedenborg e as investigações geométricas: “O seu melhor esconderijo é colocar uma venda nos olhos do outro.”

Foi quando me peguei lembrando de quando estive em Lisboa, a capital da saudade, e que em uma tarde de passeio, quando me senti completamente sozinho, intuindo o fim de um ciclo em minha vida, me deixei sentar no meio-fio de uma rua vazia e estive chorando um tempo. Lembro que naquela hora eu pensei estar contribuindo com minhas lágrimas para aquelas sarjetas saudosas de memórias. Eu irrigava aquelas ruas com a minha saudade. Uma saudade que eu viria a sentir não muito tempo depois. Era daquela sensação de que falava a personagem de Luar durante o encontro. A falta de timming da vida.

Em muitos momentos não sabia exatamente o que sentir, se era para sentir alguma coisa ou se era para eu tentar acompanhar as várias situações que se davam no palco ao mesmo tempo. Por inexperiência ou por curiosidade, fiquei vagando de um personagem ao outro, procurando neles o que provocavam em mim. Aconteceu então uma cena intensa, em que cada um se manifesta violentamente, no que para mim pareceu um fluxo de pensamento, com várias ideias e sensações se sobrepondo – como um rádio que sintonizasse várias estações simultaneamente. A cacofonia que se produziu foi assustadora e me surpreendeu a entrega dos atores. Caio arfava de exaustão física, Luar vagava numa angústia visível, Pedro entregue no que parecia ser um vigor furioso, e num contraste a todos os demais o ar complacente de Lucas, que fosse pelas roupas, fosse pelas feições, tinha aquela aura atemporal na figura.

Pedro Capello

Para minha surpresa (e choque), foi solicitada minha participação em dois instantes da peça. No primeiro, sou convocado a realizar um desejo e recebo um abraço e um beijo repleto de carinho e cumplicidade. No segundo, me é oferecida uma música que também é um lamento e um pedido para jamais esquecer. Nestes dois episódios Caio me conduziu em cena com confiança e generosidade, cheio de afeto e respeito. Não poderia me sentir mais comovido e cheio de orgulho.

Tudo neste espetáculo se converteu para mim em experiência emocional. Todos os fragmentos que consegui capturar do texto (com algumas partes também em inglês e outras em francês) foram transformados em memória afetiva. Se esta era a intenção da obra, tiveram muito êxito, porque conseguiram tirar leite de pedra, já que sou um sujeito quase cru das artes cênicas. Não me sinto seguro para comentar sobre suas interpretações e performances. A mim no geral e individualmente me pareceram no tom adequado que a peça pedia e tratava. A música executada ao piano e com um instrumento de sopro, e também com interferências sonoplásticas, embalou perfeitamente e de maneira emocionada todos os estágios vividos no palco. Era um quebra-cabeça, imagino, difícil de ser montado, mas que em nenhum momento pareceu feito às pressas ou de improviso.

Não havia cortinas a serem baixadas, mas ao cair o pano caiu também minha fibra e me senti menino, pequeno diante de uma situação ao qual não se sabe bem o que fazer, como reagir, como se dar.

Aplaudi com o coração a experiência, e sobretudo os artistas.

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2 Responses to “O mapa da saudade”

  1. Cafeína says:

    Que bela “resenha” da experiência… Confesso meu pânico pessoal com interatividade, tanto na vida quanto na ficção. A saudade é a minha companheira mais fiel. Matá-la me deixaria sozinha, talvez.

    Grifo e guardo a frase: “O tempo então tem velocidades diferentes para cada um”.

  2. Caio Riscado says:

    Pacha, querido, suas palavras são um presente para mim e para todos da equipe do espetáculo. Muito obrigado pela presença, delicadeza e sabedoria. Muito obrigado por desenhar com firmeza a logo que sustenta toda a poesia e sonho que viu em cena!Muito obrigado pelas lágrimas que derramei…já saudosas por este nosso encontro.

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