Em carne viva

Posted in Costume, Gente, Para Ver by Pacha Urbano - Jan 20, 2015

Sem ter nenhum conhecimento sobre do que se tratava a peça, entro em uma sala escura e monótona, onde uma senhora lê um guia de TV com apatia. Sentada em um sofá velho, passa as folhas – e os olhos sobre as folhas – com o mesmo ritmo moroso de quem espera infinitamente a passagem do tempo. Escolho meu assento e começo a assistir, em tempo real, a uma noite muito difícil naquela casa. A partir dali me coloquei na condição de um vizinho bisbilhoteiro, acompanhando discussões acaloradas e sussurros, desabafos, segredos revelados, lavagem de roupa suja, mágoas, declarações de amor, de fragilidade. Assim começa a peça Boa Noite, Mãe, dirigida por Hugo Moss.

Telma, a senhora carrancuda, dirige-se ao armário da cozinha e agarra uma lata velha com bolinhos. É quando surge Jessie, sua filha, uma mulher que não demoramos em descobrir ser vítima da epilepsia, mais uma personagem. As duas compõem uma estranha engrenagem naquela casa, em que o movimento de uma resulta na reação da outra e ambas giram em suas próprias hastes oxidadas da rotina doméstica, que é também uma das muitas personagens que desfilaram pela casa àquela noite. Abrindo e fechando gavetas, revirando caixas, subindo e descendo do sótão, Jessie pergunta sobre uma arma e Telma a ignora.

O que engatilha as discussões é o anúncio de Jessie para sua mãe Telma que ela pretende se matar. Aquela noite. Por isso a insistência em saber do revólver do falecido pai. Tudo já estava preparado e o que ela desejava era um momento a sós e um breve acerto de contas emocionais do passado com sua mãe. A princípio Telma escarnece e faz pouco caso de Jessie, para logo perceber que a decisão já havia sido tomada desde o Natal e que o anúncio não era um blefe, senão uma despedida. “Eu esperei até me sentir bastante bem.”

Sob ameaça de ter tudo estragado por um telefona da mãe para o irmão, a postura hesitante de Jessie se torna firme, diminuem seus tiques, ela aperta com força suas mãos junto ao corpo, sobe seu tom de voz. “Isso é particular. O Dawson não está convidado.” Esta é a chave oferecida pela personagem para tentarmos entender o enigma de que está feita. Em uma casa onde não há privacidade nem sobre seu próprio corpo – uma vez que como epilética Jessie perde sua consciência deixando seu corpo e sua vida à mercê dos demais – ter algum controle sobre a situação é um troféu precioso. Neste momento Jessie me tocou profundamente ao soltar um lamento sobre seus familiares: “Eles sabem coisas de você antes que possa decidir se quer que eles saibam ou não. (…) Eles não têm este direito mas vão lá e pegam.” A história ali era entre elas duas, só elas.

Entretanto, vamos conhecendo todos os outros personagens: Dawson o onipresente irmão de Jessie, Ricky o problemático filho de Jessie, Loretta a cunhada bisbilhoteira de Jessie, Agnes a amiga estabanada de Telma, Cecil o ex marido de Jessie, Timmy o rapaz simpático da ambulância, Caroline a filha de Agnes, Buster o resignado marido de Anges, Connie outra amiga de Telma e o enigmático pai de Jessie, todos enchendo aqueles dois cômodos com suas ausências, citados repetidas vezes ao longo da noite. Jessie só quer fazer com que todas estas pessoas desapareçam e insiste que a morrer é isso.

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A rotina projeta suas sombras em todos os cantos daqueles cômodos no palco, e sobre elas duas, e entre o desespero e a resignação ela encontra espaço em Jessie para que ofereça uma xícara de café a Telma. Todo o tempo vemos as atitudes mais prosaicas da vida das duas emergirem por entre as frestas do diálogo e pintarem tudo de ferrugem. Mãe e filha numa esgrima ora dolorida, ora divertida, de argumentos sobre a vida, sobre o passado delas e canecas de chocolate com marshmallows. “Os momentos bons não ficam correndo atrás de você.”, diz Telma para Jessie, que titubeia a cada passo, que vacila e treme a cada gesto.

O trabalho de cenografia de Hugo Moss e Luna Santos, fazem com que o aproveitamento dos espaços no palco – divididos entre sala de estar, cozinha, sótão, hall e quarto da Jessie – seja absoluto. Prateleiras, tapetes, gavetas, utensílios de cozinha, teteias e mobílias parecem sempre ter estado ali, impregnadas de todos estes personagens citados, e por todas suas histórias. Às vezes funcionando como um campo minado, onde Jessie se move com cuidado, às vezes como um oceano escuro onde Telma, como um polvo furioso, tinge tudo de queixas. A iluminação de Aurélio de Simoni também é pulsante: sombria nos momentos mais introspectivos e mais abrangente quando as personagens explodem. Sístole e diástole. O figurino, mais tarde pude me dar conta, fala telepaticamente conosco, onde o vestido rosa de Telma, não consegue esconder o quão conservador é, denunciando as características da personagem, enquanto as sobreposições de Jessie dizem como sua vida tem sito um constante arranjo. Até nisso Beth Zalcman e Thais Loureiro, respectivamente Telma e Jessie, souberam explorar em suas personagens. As duas atrizes, apesar de vestidas, pareciam estar em carne viva, irreconhecíveis. São as técnicas de Michael Chekhov à flor da pele, num trabalho de desenvolvimento de personagem mais marcante e impecável que já vi.

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Eu também fiquei igualmente irreconhecível, em carne viva, descobrindo coisas sobre aquela família disfuncional, sobre aquelas duas mulheres transtornadas. Descobrindo também sobre mim mesmo. Saí do teatro com um carrossel de passagens e frases da peça na cabeça, com vários destes personagens acenando para mim e para minhas experiências pessoais, me fazendo anotar mentalmente todas as pessoas as quais gostaria que assistissem esta obra, que de alguma forma também poderiam ser atingidas sem eufemismo como eu fui. Cada frase, cada detalhe abre espaço para conjecturas, nada é descartado ou excedente. A própria epilepsia bem pode ser uma metáfora da influência incapacitadora de Telma sobre Jessie, desde criança lhe causando recorrentes vazios, desestabilizando sua confiança, minando sua autoestima, escolhendo até um marido para ela.

Em dado momento Jessie faz uma pergunta retórica à Telma, como quem se resigna e perdoa, afinal o outro permite que possamos nos definir como sujeito, entretanto: “E se você é tudo o que eu tenho e você não é suficiente?” Não temos como ser tudo para o outro, nem o outro tudo para nós, e é sobre perdas, compensações, reconhecimento das limitações e sobre assumir as rédeas da própria vida que penso se tratar o texto de Marsha Norman. Numa das tentativas de dissuasão de Telma, ela diz a Jessie que ela não tem que chegar às vias de fato, no que lhe responde: “Não, eu não tenho que, e acho que é até por isso que farei.” O desejo de suicídio de Jessie pode muito bem ser metáfora para sair de casa, a assunção da liberdade, de ter a própria vida nas mãos, longe do que os outros vão pensar, do que querem para você. Pode fazer alusão para muitas outras coisas. É alguém fechando a porta, dizendo “Boa noite, mãe.” e seguindo a vida. Seja ela qual for.

 

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Mais rabiscos

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Sep 13, 2014

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Livro ao Acaso recuperando o fôlego

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Jul 09, 2014

Livro ao Acaso

 

Pessoal, devido ao enorme número de pedidos de envio do Livro ao Acaso, a tiragem esgotou. Por isso não posso mais aceitar novos pedidos.

Se por um lado isso possa parecer uma má notícia, por outro é um baita incentivo para seguir adiante com este projeto que vem dando tão certo e está sendo tão bem recebido por todos vocês.

Espero contar com a paciência dos que enviaram seus pedidos até o presente momento. Estou em busca de mais apoiadores que queiram contribuir com uma nova tiragem e assim poderei atender a todos vocês.

Até lá, ajudem a divulgar a página do projeto! Publiquem as frases em seus murais, compartilhem os vídeos e também o mini documentário. Vamos promover esta mudança em suas rotinas.

E podem ter certeza: O Livro ao Acaso voltará em um futuro muito próximo!

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Produzir, produzir, produzir…

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Feb 08, 2014

PROJETOS_2013

Os últimos anos foram muito intensos na minha vida. A maneira que encontrei para apagar meus incêndios pessoais foi o trabalho. 2013, especialmente, foi um ano de produção intensa e intuição para aproveitar as janelas de oportunidades pelas quais consegui realizar alguns sonhos, abrindo três frentes de trabalho: o Livro ao Acaso, o Vidas Despercebidas e o Filho do Freud. Todos com promessas de desdobramentos para este ano novinho em folha que começa. Todos com o apoio de pessoas que me são muito queridas. Espero continuar com este espírito e que 2014 seja um ano generoso com todos nós.

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Lançamento do Filho do Freud em São Paulo

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Oct 13, 2013

Depois do lançamento do livro do Filho do Freud pela Editora Zás! na XVI Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro em setembro (veja uma porção de fotos no álbum do evento), agora é a vez de chegar à cidade de São Paulo.

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O livro reúne 80 tirinhas já publicadas no Tumblr e na página do Facebook, mais de 20 inéditas e uma HQ de 4 páginas exclusiva para o livro. Conta também com 11 artistas convidados dando sua visão sobre os personagens, além de texto de quarta capa do Laerte e texto de orelha do Arnaldo Branco.

Entre as tirinhas inéditas temos a participação especial de Jung, deixando de lado as trocas de cartas e trotes telefônicos, e aparecendo pela primeira vez em um encontro tragicômico com o velho Freud, as desilusões do primo norte americano Edward Bernays com sua prima Anna, sempre ácida, e um interesse romântico para o pequeno Jean-Martin.

Espero ver todos vocês lá no sábado.

Para quem é de outra cidade e quiser comprar o meu primeiro livro, Vidas Despercebidas, bem como o livro do Filho do Freud, ambos estão à venda online em:

http://www.livrariareliquia.com.br/filho-do-freud.html

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A boa e velha rabiscação

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Aug 25, 2013

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O primeiro livro

Posted in Gente, Para Ver by Pacha Urbano - Apr 28, 2013

VD_PROMO_CAPA1O primeiro mini conto que publiquei entitulado “Vidas Desapercebidas” foi no dia 11 de setembro de 2001. Cheguei ao trabalho pela manhã com a cabeça fervilhando de uma cena que vi na Central do Brasil entre uma camelô e um sujeito que trocava vale-transporte por dinheiro. Sentei, escrevi o mini conto no meu antigo blog, Grita Da Grade, e cliquei em “Enviar”. Em seguida me dei conta que todos do escritório estavam na sala de TV da empresa e um avião havia se chocado contra uma das torres do World Trade Center. Foi neste dia que começou minha tímida jornada literária. Semanas depois um amigo,  o jornalista Rodrigo Lima, me chamou e disse que bom mesmo seria se se chamasse “Vidas Despercebidas” e não “desapercebidas”. E assim o fiz.

Ao longo dos anos fui publicando estes exercícios narrativos em forma de pílulas de texto, histórias curtas e baseadas na vida das pessoas, em causos que me contaram, experiências que vivi, e estes foram se avolumando. Em dado momento criei um blog só para estes mini contos e chamei-o “Transeuntes”. Até que em algum momento deixei tudo para lá, não quis mais saber de escrevê-los.

Porém, recebia mensagens e emails de amigos e leitores que não conhecia pessoalmente pedindo mais mini contos e voltei devagar. O último Vidas Despercebidas publicado foi de número 78, não lembro o nome do conto nem qual era, mas lembro que a intenção era tirá-los do ar, reuni-los todos em forma de livro e tentar conseguir algum edital de fomento à Literatura ou apoio a novos escritores para publicá-lo. Escrevi outros mini contos até formar 100 e enviei para alguns concursos mas nunca obtive resposta. Também mandei para algumas editoras e nunca fui bem recebido.

Uma amiga sabia deste meu interesse em publicá-los e me sugeriu que enviasse para uma editora conhecida dela. Maria Matina, uma das diretoras da Casa Benet Domingo, me estimulou a publicar o Vidas Despercebidas quando já havia desistido dele. Entre indas e vindas, trocas de mãos, editoras que se acabaram e outras que se criaram – eu praticamente desacreditado de sua publicação – o recém criado Grupo 5W me procurou com interesse em publicá-lo e daí em diante tudo se deu com ligeireza. O livro finalmente nasceu pela Editora Verve .

Vidas Despercebidas contou com muitos beta readers, colaboradores e uma ciranda de amigas que ajudaram a organizar os contos na ordem como se apresentam no livro, bem como dois artistas que prontamente apoiaram a ideia desta publicação. O primeiro foi o fotógrafo Alexandre Pereira, carioca residindo em Porto Alegre, que cedeu dez trabalhos seus exclusivamente para ilustrar os contos, todos de uma sensibilidade sem nome, e o segundo o artista plástico Matias Mesquita, que emprestou sua obra CONTRABANDO, em que pintou pessoas anônimas a óleo em pedras portuguesas de calçamento, para dar um rosto (ou rostos?) ao livro, garantindo uma capa belíssima e que dialoga completamente com os contos no interior do livro. Ambos trabalhos são uma exposição permanente em meu livro. E outra pessoa a quem agradeço é minha amiga Bárbara Porto, que nos primeiros anos do Vidas Despercebidas o acompanhava desde a Califórnia, onde vivia, e que fez a orelha do livro com tanto carinho que sempre me comovo ao lê-la. A todas estas pessoas envolvidas eu acho um “muito obrigado” muito pouco.

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O dia do lançamento foi um dos mais bonitos da minha vida, daqueles que ficarão para sempre em cartaz no cinema da minha memória. Foi um desfile de amigos e pessoas queridas que passaram diante da minha vida a me prestigiar. Alguns faziam parte da minha história, outros passariam a fazer, e muitos ali tinham sido transformados em contos também. Vi amigos que não via há anos, gente que tinha vindo de outra cidade, outro estado, gente que vinha de longe. Gente que não se aborreceu por esperar na fila para conseguir um autógrafo e um abraço. Fila esta que sempre me pareceu tão improvável e que se fez ali diante de mim. Nunca me esquecerei de vocês.

Neste mesmo dia foram distribuídos vários exemplares de outro projeto meu, O Pequeno Livro Ao Acaso, numa edição especial e exclusiva em parceria com a Cyan Studio, empresa cujo seus diretores, Fernanda Vasconcelos e Marcos Forte, apoiam e incentivam projetos criativos como este, e a quem sou muito grato. Não tenho dúvida que nossa parceria será duradoura. Mas mais grato ainda sou à minha incansável amiga, Estela Rosa, que apresentou o projeto a eles e está sempre no front de batalha comigo.

A história de nascimento destes contos, de sua encarnação impressa em forma de livro, suas idas e vindas da gaveta, da sua jornada para conseguir editora, conseguir ganhar nova vida, e todos os projetos e fatos que estão por trás dele, alguns mesmo sobrenaturais, tudo é prova de que nenhuma vida deveria passar despercebida. O cerne do meu trabalho, percebi, é a memória, é o registro daquilo que nos é tão fugidio e esfumaçado, difícil de se captar. Quis com aquelas histórias, mesmo as inventadas, fazer um registro de toda esta gente que nos são invisíveis, todas estas histórias de vida que acontecem e se desvanecem sem que ninguém as perceba. Espero ter conseguido pescar algumas e dar-lhes novo corpo. Espero ter feito algumas pessoas pensarem nelas, porque como disse em O Pequeno Livro Ao Acaso, nossas memórias sobrevivem a nós quando passam a ser as memórias de outras pessoas.

Para os que quiserem comprar o livro Vidas Despercebidas ele já se encontra disponível aqui: http://www.livrariareliquia.com.br/vidas-despercebidas.html

E para os que gostam das histórias e querem compartilhar suas experiências, ver projetos semelhantes que encontro por aí e saber um pouco sobre como nasceram alguns contos, basta curtir a fanpage no Facebook, que é esta: https://www.facebook.com/VidasDespercebidas

Quem tiver o livro e quiser marcá-lo ou resenhá-lo no Skoob a página é: https://www.skoob.com.br/livro/316198

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O reizinho em cada um de nós

Posted in Gente, Para Ver by Pacha Urbano - Feb 04, 2013

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Este desenho foi feito para inspirar um texto, que é uma das atividades do grupo Caneta, Lente e Pincel, a qual faço parte. O conto foi escrito por Danielle Schlossarek e se chama “A indefinível e inesgotável tristeza do pequeno rei que precisava tomar decisões”, que vocês podem ler na página do grupo no Facebook.

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Spin-off do Filho do Freud

Posted in Gente, Para Ver by Pacha Urbano - Jan 31, 2013

Esta tirinha tá fresquinha mesmo, recém saída do forno, porque me aconteceu hoje de manhã.

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Saiu na Revista Ilustrar

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Jan 17, 2013

Ilustrações minhas que saíram na Revista Ilustrar, número 29, para um artigo do Renato Alarcão sobre estudar artes no exterior.

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Você pode baixar todas as edições da Revista Ilustrar, com matérias sobre a profissão de ilustrador, dicas, passo a passo, portifólio de diversos artistas nacionais e estrangeiros, e muito mais no site: http://www.revistailustrar.com

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