O bairro da saudade

Posted in Costume, Gente, Para Ver by Pacha Urbano - Jan 22, 2017

Teve um dia que.
Teve um dia que eu.
Teve um dia que eu passei por aquela casa de esquina, aquela que fica numa rua que já é alta e mesmo assim ela foi construída bem acima do chão, com degraus que levam para aquela porta bonita, e uma varandinha linda, com andorinhas voando na parede, e uma samambaia, veja você.

Nesse dia eu.
Nesse dia.
Nesse dia eu olhei em volta, para as janelas das casas vizinhas, procurando alguém que estivesse olhando a cara que eu devo ter feito enquanto observava as grades daquela casa, aquele tipo de grade toda trabalhada no capricho da simetria, a combinação de cores das paredes e das sancas.

Porque naquela hora.
Porque.
Porque naquela hora eu estava mesmo era lembrando de você. E eu tenho total consciência que a cara que eu devo ter feito denunciava isso. Essa coisa que eu venho tentando guardar e que naquela hora deve ter ficado estampada.

Na hora eu.
Na hora eu devia.
Na hora eu devia estar chorando, porque meu coração estava dando aqueles pulos, sabe, mas as lágrimas não desciam, olha que louco. As lágrimas deviam estar descendo para dentro, porque faziam cócegas na garganta e acho que por isso eu soltei um gemido.

É que às vezes.
É que.
É que às vezes eu sinto uma saudade danada de você. Não só quando estou sozinho em casa e toca aquela música que a gente cantava junto na cama. Nem quando eu olho para aquelas almofadas que me deu. Às vezes, na maioria das vezes, é quando passo por aquelas ruas.

Bem ali.
Bem ali onde.
Bem ali onde a gente ficava olhando aquelas casas todas coloridas, com aquelas janelas de madeira que já não fazem mais. Os cobogós, que até então eu não sabia o nome que tinham até você me dizer. Você que me disse que a gente fazia tanto sentido.

Aí é que eu.
Aí.
Aí é que eu me pego pensando tanto no que foi aquilo tudo. Aí nessa frase. Porque os passeios pelo Bairro dos Ingleses, cheio de casas portuguesas, olha só isso, só faziam sentido com você. Aquela dúvida se era uma Nossa Senhora ou uma Santa Edviges naquele azulejo na testa da casa.

Olha como.
Olha.
Olha como me custa colocar isso para fora. Logo eu que nunca hesitei em debochar escancaradamente daquele Jesus europeu da LBV, aquele que parece um cocker spaniel. No entanto agora fico com vergonha de que alguém naquela rua, naquele dia, tivesse visto a cara que eu devo ter feito.

É uma merda.
É uma merda danada.
É uma merda danada quando vejo aqueles jardins todos, aquela planta que solta um cheiro incrível à noite, e que nunca lembro o nome, ou aquelas casas rodeadas por quintal e cachorro na coleira. Que injustiça isso. Porque nessa hora eu lembro de você apertando minha mão antes de apontar alguma coisa.

Mas tá saindo.
Mas tá.
Mas tá saindo aos poucos esse enxame de marimbondos que ficou depois que você foi embora. Quando sair pra valer eu vou poder andar de novo naquelas calçadas e olhar para aqueles ladrilhos, para aquelas cortinas fujonas, para as amendoeiras, olhar todas elas nos olhos sem medo chorar na rua.

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Penoso retorno

Posted in Costume, Gente, Queixume by Pacha Urbano - Jan 02, 2017

“Já está se sentindo burra? Não? Então continue!” — charge por Carolita Johnson para o The New Yorker.

“Já está se sentindo burra? Não? Então continue!” — charge por Carolita Johnson para o The New Yorker.

Fez um pouco mais de um mês que voltei a ter uma atividade física regular. Acho que a última vez foi em 2004, por aí, e esse retorno tem sido uma experiência e tanto. Uma delas é ver como nesse período o ambiente da academia mudou.

Atualmente as pessoas passam grande parte do tempo completamente zumbis em seus celulares, fazendo selfies a cada série, percorrendo infinitas linhas do tempo em inúmeras redes sociais. Snapchat é a mais curiosa porque você tá lá usando um aparelho e no do lado tem uma pessoa falando sozinha, fazendo caras e bocas para o celular.

Estou me adaptando a estas coisas e ao hábito de me exercitar também. Apesar de não gostar do ambiente de academia, tenho sido muito bem tratado.

Hoje mesmo o instrutor me viu sair de um dos aparelhos e veio falar comigo:

— Fala Pacha, tudo certo aí? Posso dar uma olhada nas suas séries?

— Oi, R., tudo beleza. Aqui a ficha.

— Tô vendo que a M. mudou para você, né? Ficou melhor?

— Sim, ficou sim. Dá para fazer essa minha fisioterapia aí na hora do almoço, como eu preciso.

— Hahahaha! Fisioterapia… Boa! — virou a ficha de um lado e do outro — Opa, tô vendo aqui que já tem um mês que você está com a gente. E aí, o que tá achando?

— Acho que deveriam aceitar plano de saúde.

— Hahahaha! — esse instrutor R. é muito feliz — Mas por que, Pacha?

— Porque tudo aqui se trata de dor. Dor e sofrimento.

— Que isso! Daqui a pouco você tá acostumado e vai pedir para a gente aumentar as séries.

“No pain, no gain”, eu tô ligado nesse papinho de vocês.

— E aí, vamos lá para o próximo? Esse aqui tu já fez?

— Fiz não. Parece complicado isso aí. Vai doer?

— Hahahaha! Se doer você tá fazendo errado.

— Então vai doer. Vamos lá, como é que é a parada.

— Deixa ajustar o assento. Pronto, senta aí. Olha, aqui você ajusta para 5, e aqui para três, tá me acompanhando.

— Tô sim.

— E aqui é a carga. O movimento é bem simples, veja [ insira aqui uma longa explicação sobre o funcionamento da estrutura muscular e óssea, do sistema cardiovascular e metabólico ]. Você mantém a coluna reta e puxa as manoplas. Faz aí.

— Uhhhgghhh… Aaarfff… Uhhhggghhh…

— Muita carga, né? Hahahahaha! Vamos fazer com menos. Vai lá.

— Uuuuuhhhggggghhhh…

— Só não pode deixa soltar, tem que sustentar o peso e puxar. Vamos lá, sem se tremer agora.

— Uhhhh… Mmmm…. Aarrf…

— Boa! De novo, faz aí.

— Uuuhhhhgggghhh…

— Isso aí. Isso aí! Pegou. Viu? Qualquer coisa é só apertar esse botão aqui e eu venho te atender.

— E faltam quantas?

— Faltam todas. Eu tava só te mostrando como fazer o exercício.

— Eu vou lembrar disso. R. Sou um cara vingativo.

— Hahahahaha! Que isso, Pacha. Estou pensando no seu bem. Carnaval vem aí, temos uma missão pela frente.

— Do jeito que pareço um sacolé fora da geladeira, cara, só se for o de 2018…

— Ó, depois de tudo: 25 minutos de transport, heim.

— Aquele que parece que estou tentando sair da areia movediça?

— Hahahaha! Só tu mesmo, Pacha. Manda ver aí.

Voltei para o exercício e amaldiçoei cada Cheetos que comi ao longo destes anos todos.

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Nossa vizinha

Posted in Costume, Gente by Pacha Urbano - Dec 26, 2016

Aqui no prédio eu tenho uma vizinha que é uma querida, a dona Antônia.

Fizemos um arranjo e ela vem uma vez ao dia trocar a água do Tacuba e colocar comida para ele, que acaba sendo muito mais do que isso: como passo muitas horas fora, ela é alguém que faz um pouco de companhia a ele ao longo do dia.

Já propus a ela que o levasse para curtos passeios, que pagaria por isso obviamente, mas ela disse: “Olhe, ele é muito bonzinho mas é arredio às vezes. Vai que pega e foge? Não vou me perdoar. Deurrolivre!”

Ontem era dia de pagá-la e aproveitar para pegar uns reparos que fez numas bermudas que rasguei os fundilhos enquanto fazia exercícios. Ela é uma costureira de mão cheia.

— Oi, dona Antônia, boa tarde.

— Boa tarde, meu filho. E o cachorrinho?

— Tá lá gordo, reclamando que teve que voltar do passeio.

— Hihihihihi -ela não faz esse som ao rir, mas ela ri por tudo, é muito risonha, e acho que a onomatopeia “hihihi” combina com a dona Antônia.- Ele não é fácil, num é?

— Não é mesmo. Aqui está o dinheiro das visitas e da costura.

— Já ‘panho lá pra você. Olhe, desculpa falar assim, mas sabe o que é?

— Tudo bem, o que é?

— Eu acho que bem vi você na televisão. Tarra eu mais Adilson na sala e apareceu você lá.

— Na televisão? Mas quando isso, gente?

— No sábado passado, quando você foi trabalhar.

— Ué…

— Bati o olho e disse: “Mar’olhe, se não é o menino do cachorro, Adilson?” Ele olhou e disse: “Pois é a cara dele, Tonha.” E eu disse: “Mar’é ele todinho. É ele sim.” Hihihihi.

— Ah, então devia ser eu mesmo. Eu tava sentado, não tava?

— Tarra sim. Numa mesa lá, quietinho, com um monte de gente lá falando.

— Era um evento em que trabalhei no fim de semana passado.

— Aaaah, marr’eu sabia! Eu disse pra Adilson que era tu. Que era o menino do cachorrinho lá. Hihihihi.

— Obrigado pelo “menino”, dona Antônia.

— Hihihihi. Marnué? É menino sim.

— Ainda bem que não foi no programa do Datena que apareci, né? Hahahaha.

— Ai, num fale uma coisa dessas que chama. Deurrolivre! Mar’olhe, você tem dado comida pro cachorrinho tem?

— A senhora e eu temos dado, dona Antônia. Não vê como tá gordo? Acho até que temos que diminuir a quantidade.

— Mar’num faça isso. Gordo também sente fome, sabia?

— Aquele lá só sabe comer, é um esganado.

— E é mesmo. É botar a comida e ele come tudo de arrastar o pote. Depois fica lá me olhando. Parece gente.

— Às vezes parece gente mesmo. E ele sabe disso, dona Antônia. Vai se aproveitar da senhora porque ele sabe que a senhora acha isso dele.

— Ele já me conhece. Fica me olhando lá da sala e vem todo manhoso me receber.

— É um manipulador, dona Antônia, não facilite pra ele não, viu.

— Pode deixar. Não gosto de encarar ele não. Dá nervoso. Hihihihi.

— Entendo a senhora. Aquela cara dele é estranha.

— Ai, num fale assim dele, o pobre. Tome aqui tome. Depois me diz se as bermudas ficaram boas.

— Muito obrigado, dona Antônia. Tenho certeza que ficaram ótimas. Boa tarde aí pra senhora.

— Boa tarde, meu filho. Deurroproteja.

E as bermudas ficaram mesmo ótimas.

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Uma palavra nova

Posted in Costume, Gente by Pacha Urbano - Dec 21, 2016

Tem umas semanas vi o exato momento em que uma pessoa aprende uma palavra nova.

Atravessei aquela multidão que se aglomera entre as portas e fui me espremendo, entre bolsas retangulares gigantes, para o meio do vagão do metrô.

Consegui espaço naquela parte em que o frio é tão intenso que seus olhos secam e começam a arder, porém o único lugar onde é possível sacar um livro com uma mão e ir pendurado com a outra.

Sentada na minha frente estava uma mulher muito bem vestida e com um livro aberto no colo. Confesso que senti uma vontade enorme de fotografá-la: estava com uma página inteira e metade da outra pintadas com marcador verde fluorescente. Eu a olhei na hora em que terminava de marcar uma linha e tampava a caneta.

Abri meu livro e comecei a lê-lo, vi que ela estava olhando fixamente para a capa.

Facilitei e movi meus dedos para que ela pudesse ler sem muito esforço o que estava escrito.

Ela é dessas pessoas que leem movendo os lábios, o que me ajudou a saber qual palavra a intrigara. Parecia ignorar completamente a minha cara por cima do livro que ela encarava. Olhou de novo, apertando os olhos, e tirou o celular da bolsa.

Digitou, digitou e ficou esperando o 3G e o Google fazerem seu trabalho.
 Viu o resultado e meneou a cabeça pro lado, aquele gesto de “Ah, tá.” Não pareceu muito entusiasmada com a descoberta, mas saciou a curiosidade e voltou para seu livro, interessantíssimo, concluí, pelo número de trechos marcados.

A palavra que ela pesquisou foi “palimpsesto”.

Assim como ela, também aprendi o significado dessa palavra recentemente com a Estela Rosa. O livro foi presente do Guilherme Tolomei e se chama “Como se Estivéssemos em Um Palimpsesto de Putas”, de Elvira Vigna.

Recomendo.

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Disparadores de lembranças

Posted in Costume, Gente by Pacha Urbano - Dec 19, 2016

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Não fazem muitos dias o céu recebeu uma lua tão espetacular que chamou minha atenção e olhei surpreso pela janela da Linha 2 do metrô, que aqui no Rio corre pela superfície por um longo trecho. Estava imensa e alaranjada, sem nuvens em volta para tapá-la. Pensei: “Parece que está acompanhando o metrô.” Foi nesse momento que uma torneira de lembranças foi aberta.

Minha mãe e eu tínhamos uma relação de amizade e respeito bem particular. A vida difícil que levávamos abrigava momentos que se tornaram muito marcantes em minha formação e estão sempre vindo à tona quando relaxo das pressões da rotina e me permito ficar saudoso. Então, distraído olhando aquela lua, lembrei que uma das válvulas de escape da minha mãe era passar os fins de semana na casa de sua irmã em Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense. Tia Rosa era uma pessoa que o humor oscilava do muito divertida ao muito diabólica, mas a presença da minha mãe parecia ativar o que havia de melhor nela e, quando estavam juntas, essa química irradiava para todos naquela casa. E por todos estou dizendo um companheiro, dez filhos, alguns netos e muitos agregados e vizinhos. A casa da minha tia Rosa na Rua Marques Canário estava sempre de portas abertas e com um trânsito enorme de gente.

Durante alguns anos minha mãe e eu vivemos nessa casa como agregados, dividindo cama, comida e teto com minha tia, seu companheiro, sete filhos e três netos. Os outros três filhos dos dez ainda frequentavam a casa durante os fins de semana. O companheiro da minha tia era padeiro e técnico de aparelhos de televisão nas horas vagas, minha tia era costureira e um ou outro filho com empregos precários ajudavam no que podiam em casa. Éramos todos paupérrimos, como no filme Feios, Sujos e Malvados, e a vida bastante cara e complicada em meados dos anos 80. Ainda assim minha tia nos abrigou quando minha mãe fugiu de uma relação extremamente abusiva e violenta, fazendo caber mais uma boca na já tão apertado orçamento doméstico. Depois que voltamos a viver com meus tios e seus dois filhos em Osvaldo Cruz, minha mãe, que desde a adolescência frequentava a casa da sua irmã em Nilópolis, manteve o costume de ir para lá sozinha, agora como válvula de escape da pressão da vida que levava.

Odiava esses seus passeios dos fins de semana porque, em meus sete ou oito anos de idade, a ausência da minha mãe era extremamente sentida. Naquela época, como podem imaginar, não havia qualquer possibilidade de contato mais imediato que não fosse por telefone, e nem minha tia de Osvaldo Cruz e nem a de Nilópolis tinham telefones em suas casas. O silêncio e a incógnita preenchiam todas as horas dos meus sábados e dos meus domingos, se transformando em momentos de ansiedade que beiravam o desespero. Muitas vezes passava horas em cima do muro, ou agarrado às barras do portão daquela casa olhando para a esquina, esperando que ela voltasse. Sonhava constantemente que minha mãe me abandonava, que não voltava de viagens misteriosas, que morria, que era sequestrada. Isso começou a me afetar tanto que passei a ficar doente com mais frequência do que o normal e a ficar mais arredio. Por pressão dos meus tios, que tinham que cuidar de mim, e também por conselho das entidades religiosas que acompanhavam a família — éramos umbandistas—, minha mãe passou a me levar também em alguns desses fins de semana.

Nilópolis e Osvaldo Cruz estão muito longe um do outro e isso quer dizer algumas horas de pé em um ônibus cheio. Íamos até a estação de trens de Osvaldo Cruz, subíamos em um ônibus e descíamos na estação de Nilópolis (pensando aqui, não sei dizer ao certo porque não íamos de trem). Lá nos encaminhávamos para o terminal rodoviário e subíamos no Mirandela, um ônibus azul sacolejante, barulhento, sujo e caindo aos pedaços até a casa da minha tia Rosa. Em todo o trajeto minha mãe tinha que me entreter ou me manter calado. Poderia ser por meios rudes ou muito gentis dependendo de como a semana havia sido para ela. Em geral íamos calados, comigo olhando pela janela do ônibus e antecipando os marcos do caminho, como em um jogo. Agora a praça com o coreto, agora o poste torto, agora o cemitério (se benze), agora a casa com o Laranjito pintado no muro, agora a igreja com gente de roupa estranha na porta, agora a estação de Olinda, agora… e assim ir adivinhando o que vinha em seguida. Ou olhar disfarçadamente para as pessoas que subiam ou desciam do ônibus. Mas muitas vezes essas coisas ficavam desinteressantes e eu tentava chamar a atenção da minha mãe. Nem sempre tinha sucesso.

Numa dessas ocasiões ela olhou para fora da janela e disse:

— Está vendo a lua? Se você ficar olhando para ela vai ver que está seguindo a gente o caminho todo.

Então esse passou a ser também um dos recursos que eu usava para me distrair durante essas viagens enormes e enfadonhas: me certificar que, independentemente da paisagem que estivesse do lado de fora daquelas janelas empoeiradas, a lua estaria no céu olhando para a gente.

Aquela mesma lua me olhava através do vidro adesivado da janela do metrô Linha 2 e talvez por alguns segundos eu tenha me sentido de novo na pele daquele menino mirrado e cabreiro, porque ao que parece o processo de acesso da memória é atemporal e em constante reconstrução. Não existe uma linha do tempo, ou um filminho pronto de uma época específica em nossa mente, e sim marcos mnemônicos em que outros grupos de lembranças se conectam e que nos localizam na nossa compreensão do tempo. Assim, quando algo nos dispara uma lembrança, esta estaria ligada a um grupo de outras lembranças, de situações, pessoas, coisas, cheiros, etc, e reconstruiríamos o episódio vivido com mais ou menos detalhes conforme foi possível reagrupar estes marcos mnemônicos (por conta disso é comum a gente lembrar de uma situação com mais detalhes do que outras pessoas que passaram pela mesma, muito provavelmente porque conseguimos montar essas pecinhas que as outras pessoas deixaram espalhadas ou não as apreenderam, assim como também é comum reconstruirmos memórias a partir dos relatos de outras pessoas, e esses relatos serem tão vívidos para nós que passamos a assumi-los como nossos, como lembranças nossas).

Dias mais tarde passeava com meu cachorro, o Tacuba, pelas ruas do meu bairro, ruas que fazem parte da nossa rotina de passeios, e notei algo que não tinha me chamado atenção anteriormente. Uma das casas era revestida com um tipo de azulejo bastante peculiar. Esse azulejo é manchado de caramelo e salpicado por bolhas de vidro fumê e outras menores brancas, de aspecto meio orgânico e muito pouco atrativo. Deparar com aquele tipo de azulejo me surpreendeu bastante porque novamente acionou uma torrente de lembranças.

Curiosamente vivo em um bairro do subúrbio chamado Higienópolis, que sempre é confundido com Nilópolis ou Mariópolis, e quando digo que vivo ali logo pensam que me refiro àquela cidade ou ao outro bairro, porque parecem sempre desconhecer a existência do meu. Ter isso em mente, ainda que em nível inconsciente, pode ter sido um tonificante dessas relembranças, mas ter acessado aqueles episódios das idas para a casa da minha tia Rosa recentemente deve ter sido de fato o catalisador. Acontece que se as idas para a casa da minha tia de Nilópolis eram enfadonhas, as voltas para a casa da minha tia de Osvaldo Cruz eram muito mais porque aconteciam aos domingos à noite. Tomávamos o Mirandela na porta da casa da minha tia até o terminal rodoviário e andávamos dali à estação de trens de Nilópolis para esperarmos o ônibus que nos deixaria em Osvaldo Cruz. E esperávamos muito tempo.

O ponto desse ônibus era em frente ao que imaginava ser um bar ou padaria, com uma peça de mármore bem encardida e desbastada como soleira e aquelas portas de enrolar sujas de graxa e poeira da rua. Obviamente que minha mãe não me deixava sentar ali e nem me encostar na porta ou na parede, então ficávamos os dois de pé por sabe-se lá quanto tempo até que o ônibus passasse, aceitasse nos recolher, nós subíssemos, ela colocasse as fichas coloridas no repositório, me mandasse passar por baixo da roleta e nos sentássemos nos bancos sacolejantes, porque àquela hora já quase ninguém estava na rua e o ônibus estaria vazio, e fizéssemos todo o caminho de volta. Mas, até que isso acontecesse, era uma longa espera.

A parede externa daquele bar ou padaria era revestida com este mesmo tipo de azulejo esquisitos e vê-los significava que começaria uma sessão de tortura: aguentar de pé, no frio ou no calor abafado das noites, resistindo ao sono e à impaciência infantil, até que o ônibus passasse. Imagino que para a minha mãe também não devia ser nada agradável aquele lugar e ver o filho cair pelas tabelas de sono sem poder fazer muito mais do que mantê-lo acordado e entretido. Bom, isso poderia se dar através de broncas e violência ou poderia ser através de gentilezas, dependendo de como tenha sido o fim de semana dela. Então eu contava as fileiras de azulejos, contava as bolhas de vidro em cada azulejo, contava os carros que passavam, contava as letras dos letreiros das lojas e dos anúncios do Carvão Vegetal Saci pintados nos muros da estação…

Inquieto, meu cachorro puxou a guia e me tirou daquele pequeno transe, me devolvendo ao presente e me lembrando que ainda tínhamos muitas calçadas para percorrer e postes para ele mijar. No entanto, por todo o trajeto de nosso passeio, mesmo quando passamos pela padaria onde ele é sempre recebido com euforia, mantive aquela nuvem de recordações em volta da minha cabeça. Durante muitos anos guardei essas lembranças debaixo de uma porção de outras, ignorando uma melhor compreensão da minha história e da história da minha mãe. O quanto aquelas escapadas para Nilópolis deveriam ser importantes para ela, onde poderia entrar de novo em contato com a juventude que teve de ser interrompida por uma sucessão de episódios desagradáveis e péssimas escolhas. Rever seus rolos, conquistar outros, ter a companhia da irmã tão querida, dos sobrinhos que a cobriam de mimos, voltar para onde ela era recebida sempre com entusiasmo e expectativa.

Dobrei a esquina da minha rua e, enquanto subia a pequena ladeira, olhei para a fachada do prédio em que vivo, forrado por pastilhas de porcelana seguindo a mesma padronagem da fachada da casa dos meus tios de Osvaldo Cruz. Com a exceção da cor: a do meu prédio é verde escuro e branco e daquela casa era azul marinho e branco. Claro que eu já havia me dado conta disso, mas a sequência de lembranças fechou um ciclo mnemônico, porque era como se eu estivesse voltando de Nilópolis para aquela casa em Osvaldo Cruz.

Mas aí essa história fica para outro dia.

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Inktober 2016

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Nov 14, 2016

Esse ano finalmente participei do evento mundial Inktober, em que ilustradores no mundo todo se propõem o desafio de publicar uma ilustração por dia, durante todo o mês de outubro, feita de maneira analógica. O tema que me dei para este ano foi: Personagens dos livros que li

Decidi colocar estes desenhos do Inktober à venda. Um ou outro já tem dono, então se tiver interesse em algum, manda uma mensagem e negociamos tudo.

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Auf Wiedersehen, Jean-Martin

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Aug 16, 2016

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Esta será a última tirinha do Filho do Freud.
Ou pelo menos será a última por tempo indeterminado.

Como sabem, publico indefectivelmente as tirinhas toda terça-feira, a partir das 13h, desde maio de 2012 e, desde 2014, passei também a publicar tirinhas novas às quintas-feiras. Nos primeiros anos, as tirinhas chegaram a ser publicadas simultaneamente em português, espanhol, francês e inglês. E, ainda hoje, mantenho as publicações em espanhol.

Durante este tempo, fui convidado a dar palestras, oficinas, participar de colóquios, simpósios, mesas de debate, publicações sobre Psicologia e Psicanálise, conceder entrevistas para jornais, revistas, blogs, sites, portais de notícias, rádios e canais de televisão, além de me envolver em vários projetos e eventos de quadrinhos e Psicanálise. Publiquei também três livros – um de minicontos e dois de quadrinhos – e mantive um projeto que é um livro de distribuição gratuita e intervenção urbana.

Tudo isso por conta deste meu trabalho com o Filho do Freud.

Sou muitíssimo grato a todos vocês que leem, comentam, compartilham, recomendam aos seus amigos e me enviam mensagens, assim como os que aguardaram incansavelmente nas filas de autógrafo durante os lançamentos dos livros e me receberam tão bem em suas cidades e universidades. Sou grato, em especial, a todas as pessoas que confiaram em mim e me convidaram a participar de eventos acadêmicos e de quadrinhos, acreditando que eu tivesse algo a dizer para os seus. Continuarei aceitando convites com muito carinho.

Não acredito, entretanto, que haja “muito obrigado” suficiente para dizer a todos que colaboraram direta ou indiretamente com as tirinhas ao longo destes anos, seja revisando, traduzindo para outros idiomas, enviando sugestões e ideias ou editando os livros. Vocês sabem quem são e sabem o lugar especial que habitam no meu coração.

A decisão não foi tomada sem que eu pensasse exaustivamente a respeito e também não foi sem algum pesar. Dormi e acordei ao longo desse tempo no seio dessa família louca. Criei enorme carinho pela ingenuidade e criatividade do Jean-Martin, aprendi muito sobre empatia com a Martha, desenvolvi minha perspicácia com a Senhorita Müller, destilei meu veneno através da Anna e sua acidez, aceitei a potência por trás da paciência de Helene, da contemplação existencialista da Sombra e da vontade de superação nas picardias do Doutor Jung. Entendi sobre ponderação com o Edgar e fidelidade ao que acredito com Jo-Fi. Com o velho Freud procurei olhar com estranheza para o que pensava ter entendido dos seus livros e tentei tingir tudo com humor e respeito em meu trabalho. Fecha-se, assim, este ciclo.

Para que a página siga viva, pretendo republicar, o mais regularmente possível, todas as tirinhas até aqui e assim vocês poderão ler e compartilhar sempre que quiserem.

O volume 1 e o volume 2 do Filho do Freud têm dezenas de tirinhas inéditas, então, aproveitem e comprem os livros! Os caderninhos também. O trabalho ainda não parou: em dezembro estarei em São Paulo para a CCXP. E para os que aguardam ansiosamente mais um livro, no começo do ano que vem será lançado o terceiro volume e espero que vocês todos continuem por aqui para saber mais a respeito!

Parafraseando o poeta, peço perdão por me estender tanto, mas não tive tempo de ser conciso.
Um abração em cada um de vocês!

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Boa Noite, Mãe

Posted in Costume, Gente, Para Ver by Pacha Urbano - Jun 19, 2016

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Quando assisti a primeira montagem de Boa Noite, Mãe, dirigida por Hugo Moss, não sabia absolutamente nada sobre o texto. Saí atravessado por inúmeras gavetas, em que cada uma estava repleta de temas delicados, espinhosos, inflamáveis e outros que não gostei de saber que ainda guardava. Saí parecido com aquela estátua de Salvador Dalí. Nessa nova montagem, apesar de ter lido (e relido) o texto, de já ter assistido (duas vezes!) a anterior, saí igualmente comovido, com o peito em brasa.

As atrizes Thais Loureiro e Fabianna de Mello e Souza, interpretando as personagens Jessie e Thelma, respectivamente, compõem outro jogo de engrenagens, uma dinâmica bem diferente da primeira, o que para alguém pouco familiarizado com teatro como eu é assombroso. Você aperta os braços da poltrona, ou a mão da pessoa do lado, e é conduzido em tempo real num duelo de gênios e emoções durante uma noite que parece infindável, apesar da tragédia anunciada. E isso não só pelo texto da Marsha Norman, que consegue nos agarrar com firmeza, mas pela intensidade com que as duas atrizes se entregam aquelas entidades, que são Thelma e Jessie, e se atiram naquela arena formada por uma sala de estar e uma cozinha. É arrebatadora a atuação de Fabianna, construindo uma Thelma tão diferente e ao mesmo tempo tão respeitosa ao texto original, com gestos, olhares e modulações na voz que nos faz acreditar conhecermos aquela pessoa, de realmente acharmos que se trata de alguém real do nosso convívio. E Thaís, impecável, incorporada em outra Jessie, ainda que a mesma, mas diferente, em outro nível de angústia em sua busca, em seu embate cauteloso, embora assertivo, com sua mãe.

Obras que tratam da relação mãe e filha despencam quase sempre na pieguice, mas Boa Noite, Mãe tem outros temperos, ora ácidos ora doces, como o álbum de quadrinhos Você é minha mãe?, de Alison Bechdel, tratando da maternidade e da filiação com bisturi e lentes de aumento, dissecando cada artéria dessa relação, fugindo da obviedade sacra de uma Maria de Nazaré, ou do tabu amaldiçoado de uma Medeia, mostrando como a pressão da cultura e da sociedade exercem sentimentos tão conflitivos na cabeça da gente.

Para as pessoas que gostam de se sentir desafiadas, que não sentem medo de olhar para os abismos familiares, a peça Boa Noite, Mãe é uma obra que nos faz aceitar as gavetas que não sabíamos ainda sermos atravessados.

BOA NOITE, MÃE (‘night, Mother) no Teatro Ipanema
(Rua Prudente de Morais 824,Ipanema, Rio de Janeiro)
Quartas e quintas, 20h
15 de junho a 7 de julho de 2016
Drama
95 minutos
Classificação: 16 anos
R$40,00(inteira)/ R$20,00(meia)/ R$15 (lista amiga)

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Toque de Midas

Posted in Gente, Para Ver by Pacha Urbano - May 06, 2016

Desde que comecei a publicar a série de tirinhas Filho do Freud tive oportunidade de participar de alguns debates sobre quadrinhos e conceder entrevistas para rádios, TVs, jornais, sites e revistas. Meus colegas quadrinistas podem confirmar, uma vez que passaram por experiências semelhantes, que as perguntas são praticamente as mesmas quase sempre. É comum também fazermos malabarismos retóricos para responder de maneira diferente as mesmas questões que nos fazem sobre nosso trabalho, numa franca tentativa de fugir da monotonia.

Foto por Lila Montezuma.

Foto por Lila Montezuma.

Ontem à noite aconteceu uma mesa de debates na SIQ – Semana Internacional de Quadrinhos da UFRJ 2016, sobre “Público e Crítica com Quadrinhos na Internet”, um título que sugeria muitas direções passíveis de caírem no lugar comum, mas que com a mediação magistral do Ricardo Labuto Gondim, autor dos livros B e Deus no Labirinto, a noite se tornou tremendamente mais interessante para os que assistiam, mas sobretudo para o Renato Lima, autor da Pocketscomics , e editor da Mosh! e Jukebox, e eu, escolhidos para debater.

O Ricardo tem um talento que admiro que é o de fazer brilhar os demais. Vejam: isso não é feito com lisonja e adulação. Esse brilho ele extrai através de apontamentos e provocações que nos ajuda a colocar para fora o que temos de melhor, muito semelhante ao método socrático. Atribuo a isso sua experiência e convivência com a música clássica.

Renato e eu fomos regidos pelo maestro Ricardo ontem à noite, sendo confrontados com perguntas desafiadoras e que mexiam com temas delicados, porém nenhuma pergunta era em vão, nenhuma pergunta sem estar devidamente contextualizada para o público e para nós debatedores. Suávamos frio antes e durante as nossas respostas e considerações. Estávamos felizes.

Experiência riquíssima!

Sou grato em ter como amigo um escritor que admiro e uma pessoa tão generosa e talentosa como ele.

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Vamos conversar

Posted in Para Ver by Pacha Urbano - Mar 03, 2016

Amigos, venho aqui convidá-los para um bate-papo comigo na II Jornada Sócio e Clínico Institucional de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida.

Estarei lá no dia 15 de março, a partir das 19h, com o tema:
“Quem é este tal de Édipo? – Como fazer caber uma ideia ou uma teoria numa narrativa gráfica: os desafios de falar de Psicanálise num quadrinho.”

Falarei um pouco sobre processo criativo, escala e critérios de humor baseados nas obras do velho Freud. E após o evento, que é aberto ao público, haverá uma sessão de autógrafos, então quem não conseguiu ir no lançamento aqui do Rio ano passado, a hora é essa.

Dia 15/03, terça-feira, das 19h às 21h
Auditório da UVA – Universidade Veiga de Almeida
Rua Ibituruna, nº 120, Maracanã
(perto da estação do metrô São Cristóvão)

uva_pacha-(final)

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